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No Portal da Eternidade

No Portal da Eternidade

Nov. 15, 2018Ireland111 Min.PG-13
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Sinopse

No Portal da Eternidade

1888. Ap√≥s sofrer com o ostracismo e a rejei√ß√£o de suas pinturas em galerias de arte, Vincent Van Gogh (Willem Dafoe) decide ouvir o conselho de seu mentor, Paul Gauguin (Oscar Isaac), e se mudar para Arles, no sul da Fran√ßa. L√°, lutando contra os avan√ßos da loucura, da depress√£o e as press√Ķes sociais, o pintor holand√™s adentra uma das fases mais conturbadas e prol√≠ficas de sua curta, por√©m mete√≥rica trajet√≥ria.

Crítica

As gentis notas de um afetuoso piano, tocado com um tipo de distanciamento, acumulam-se sobre um campo de girass√≥is mortos no inverno, √°rvores balan√ßando ao vento em um dia iluminado e, em seguida, uma longa plan√≠cie, estendendo-se at√© se perder de vista. Estas podem ser vistas como imagens prosaicas, quase triviais, mas n√£o aos olhos de Vincent van Gogh (Willem Dafoe). Ele desbrava um matagal, escala um pequeno morro, joga terra sobre o rosto, corre pelos campos: mais do que nunca, est√° em contato com a realidade¬†‚ÄĒ em contato com Deus que est√° na natureza, e a natureza √© beleza, nas palavras do artista. Mas ent√£o a m√ļsica cessa, o frio retorna rasgando a melodia e o c√©u perde o resplendor.

Marcado por cortes secos e abruptos em toda sua proje√ß√£o, obra de uma montagem inquieta e √≠mpar,¬†No Portal da Eternidade¬†√© uma cinebiografia ousada, que nunca se rende √†s conven√ß√Ķes ou intenta adequar-se √†s estruturas, miss√£o que seu protagonista jamais p√īde cumprir em rela√ß√£o ao establishment art√≠stico de sua √©poca. Porque mais do que se debru√ßar sobre seu objeto de estudo, o filme baseado em eventos reais de¬†Julian Schnabel¬†(O Escafandro e a Borboleta), cineasta que √© tamb√©m um pintor renomado, est√° interessado no que mora do outro lado dos fatos: est√° interessado em dissecar a mente adoecida de um homem que alterou o curso da perspectiva ocidental e o lugar deste¬†outsider¬†no fluxo da Hist√≥ria da Arte.

Quando se trata de uma figura t√£o polarizante quanto van Gogh em termos de personalidade e de relev√Ęncia como artista, o longa compreende muito bem que n√£o existem respostas f√°ceis: a infame automutila√ß√£o da orelha esquerda do pintor, caso que acompanha sua mem√≥ria e que mancha a biografia do holand√™s, n√£o nos √© mostrada. Uma escolha feliz de Schnabel, diga-se de passagem, j√° que a decepa√ß√£o prenderia a aten√ß√£o do espectador em um momento apelativo, desviando, assim, o foco do que realmente importa: capturar a ess√™ncia ora tempestuosa, ora pac√≠fica de um homem cujos dist√ļrbios psicol√≥gicos s√£o estudados por especialistas at√© hoje.

√Č interessante perceber, portanto, como¬†No Portal da Eternidade¬†nem sempre tenta vender, ainda que o fa√ßa ocasionalmente, a ideia pr√©-concebida de que van Gogh n√£o encontrou √™xito em vida por ser um g√™nio incompreendido. Enquanto √© verdade que sua produ√ß√£o nadou na contram√£o das correntes art√≠sticas que disputavam a hegemonia do universo da pintura do fim do s√©culo XIX, tamb√©m √© fato que o pintor jamais teve a chance de ser “como eles, sentar com eles”¬†‚ÄĒ como narra a voz de Dafoe no in√≠cio da trama ‚ÄĒ, porque sua prejudicada sa√ļde mental o impedia. Se hoje ainda h√° pouqu√≠ssima compreens√£o acerca sobre os portadores de transtornos mentais, n√£o √© dif√≠cil imaginar como a estrada foi dura para van Gogh.

No Portal da Eternidade

Marginalizado pelos preconceitos e visto como louco, o holand√™s tinha um temperamento vol√°til, o que s√≥ acarretou problemas em suas tentativas de socializa√ß√£o. √Č como Gaby (Stella Schnabel), empregada da pens√£o francesa de Madame Ginoux (Emmanuelle Seigner), que serviu de moradia ao pintor durante alguns anos, diz: se ele tomasse um banho, at√© ficaria atraente. Sua falta de tato no trato com outras pessoas isolou o artista, que s√≥ p√īde mesmo encontrar paz e al√≠vio da escurid√£o e da ansiedade que o rondavam constantemente ao pintar, frequentemente ao ar livre. Distante das press√Ķes e das obriga√ß√Ķes do contrato social, van Gogh podia ser van Gogh, cujo esp√≠rito livre √© incorporado com brilho por Dafoe.

O trabalho desempenhado pelo ator em¬†No Portal da Eternidade¬†√© de pura maestria; √©, de fato, o trabalho de um artista que tem total controle de sua arte. Ao passo em que a montagem ocasionalmente d√° um passo atr√°s, nos arrancando da contempla√ß√£o da beleza do mundo para nos lan√ßar novamente em meio ao turbilh√£o da realidade, √© Dafoe¬†‚ÄĒ que aprendeu a pintar como van Gogh¬†‚ÄĒ o fio condutor da narrativa. S√£o seus olhares perdidos e sorrisos ternos que traduzem o desespero e as alegrias de um homem cuja vida √© perturbada por dem√īnios internos. Distante da reprodu√ß√£o homog√™nea que denota boa parte das interpreta√ß√Ķes de figuras reais, o ator captar a ess√™ncia de seu personagem atrav√©s dos gestos.

Essa quest√£o √© particularmente relevante porque Schnabel, sabiamente, evita a verossimilhan√ßa. Dafoe √© um ator que j√° passou da casa dos 60 anos, enquanto van Gogh faleceu aos 37. Por outro lado,¬†Oscar Isaac, prestes a completar quatro d√©cadas de vida, √© um quarto de s√©culo mais jovem que seu companheiro de cena e, em¬†No Portal da Eternidade, vive Paul Gauguin, pintor franc√™s cinco anos mais velho que o holand√™s. Ao romper o compromisso com o factual tamb√©m no √Ęmbito da escala√ß√£o, o diretor amplia o choque entre os dois artistas, separados n√£o s√≥ pelas suas sanidades, como tamb√©m afastados pela persona ultra-masculina, pretensamente revolucion√°ria e frequentemente t√≥xica de Gauguin.

Tudo, em suma, √© realizado aqui de modo a resgatar o olhar distorcido e muito particular de van Gogh, incluindo o exame de suas causas e consequ√™ncias pessoais e p√ļblicas. √Č uma opera√ß√£o minuciosa que, por si s√≥, alavanca¬†No Portal da Eternidade, acima de tudo por causa da bel√≠ssima dire√ß√£o de fotografia de¬†Beno√ģt Delhomme¬†(A Teoria de Tudo), cuja c√Ęmera fluida e afetiva ultrapassa o cinema de Schnabel ao emular a perspectiva do pintor holand√™s. Em outras palavras, os quadros ‚ÄĒ amarelos, desfocados, tortos, desconcertantes, fren√©ticos, quase sempre subjetivos, nunca fixos e banhados pela luz natural ‚ÄĒ que s√£o registrados pelo filme poderiam muito bem existir em uma realidade paralela onde van Gogh √© um cineasta.

Contudo, essa janela de afetos e sentimentos quase tang√≠veis que √© aberta para a mente e para o mundo que gira ao redor do protagonista √© ocasionalmente cerrada pela dualidade inevitavelmente imposta pela edi√ß√£o de¬†No Portal da Eternidade. Em seu esfor√ßo para transpor a vida do holand√™s para as telonas, Schnabel, que tamb√©m assina a montagem, acaba por se perder nas desconex√Ķes que prop√Ķe entre imagem e som. Por mais que seja interessante a sua recusa em emocionar facilmente atrav√©s de um uso did√°tico da trilha sonora, um costume no g√™nero biogr√°fico, a costura retalhada de vinhetas e elipses gera uma linearidade irregular que nem sempre comunica a universalidade da trajet√≥ria de van Gogh.

O jogo estabelecido entre os convites feitos pelo filme ao espectador e o afastamento que o mesmo provoca ocasionalmente¬†‚ÄĒ que √©, de fato, uma interessante leitura da insanidade de seu protagonista ‚ÄĒ, √© um trunfo, mas tamb√©m uma armadilha.¬†No Portal da Eternidade nos instiga a buscar a beleza do comum, como fez o holand√™s, mas tamb√©m encerra-se em si pr√≥prio ao n√£o fornecer informa√ß√Ķes o bastante para facilitar o entendimento das raz√Ķes que fazem com que van Gogh seja van Gogh. Em outras palavras, n√£o ter pelo menos uma base de conhecimentos sobre a Hist√≥ria da Arte ou sobre a vida do biografado pode, de certo modo, prejudicar a experi√™ncia de algumas das quest√Ķes colocadas por Schnabel.


Em uma sequ√™ncia no interior do Museu do Louvre, por exemplo, o pintor cita Goya e Veronese, dentre outros artistas, como suas principais refer√™ncias. A uni√£o dos dois n√£o √© produto do acaso, uma vez que ambos representam¬† √† perfei√ß√£o as contradi√ß√Ķes internas da pr√≥pria arte de van Gogh, os choques que o transformaram em um “g√™nio incompreendido”. Como homem de forma√ß√£o religiosa, o pintor holand√™s pautou-se por um ideal divino, mas tamb√©m integrou-se, por influ√™ncia dos impressionistas, √† corrente pict√≥rica de sua √©poca. Ou seja, ao mesmo tempo em que era devoto, van Gogh tamb√©m buscava outra forma de pintar. Era, portanto e de certo modo, um conservador e um revolucion√°rio.

A cena mais impressionante da proje√ß√£o, os quase 10 minutos de di√°logo entre o personagem de Dafoe e o padre interpretado por¬†Mads Mikkelsen, no √ļltimo ato de¬†No Portal da Eternidade, exemplifica n√£o s√≥ o contraste supracitado, como tamb√©m o embate entre o car√°ter centr√≠peto do filme e suas potencialidades em dire√ß√£o ao que √© externo e universal. √Č, sem sombra de d√ļvidas, um duelo fant√°stico entre dois excelentes atores, mas cujo conte√ļdo √≠ntimo provavelmente n√£o ser√° apreendido em sua totalidade pelo espectador m√©dio. Assim, ao mesmo tempo em que vocaliza a perturba√ß√£o causada pela arte de van Gogh, considerada “feia” por muitos, a cinebiografia n√£o deixa claro, por completo, o porqu√™ do inc√īmodo.


Mais di√°logos como este fazem falta: √© atrav√©s das palavras, e n√£o necessariamente dos afetos, por mais que sejam intensos e arrebatadores, que¬†No Portal da Eternidade¬†se abre. O longa pode ser de Dafoe, mas as curtas, por√©m cruciais participa√ß√Ķes de Isaac, Mikkelsen, Seigner e de¬†Rupert Friend¬†e¬†Mathieu Amalric, que interpretam o irm√£o e o m√©dico de van Gogh, respectivamente, deixam entrever uma obra que poderia se beneficiar mesmo da conversa e do poder do discurso. O didatismo e a exposi√ß√£o, quando empregados de forma correta, n√£o precisam ser evitados a todo custo; aqui, por sinal, seriam muito bem-vindos, j√° que sintonizariam melhor as potencialidades desta cinebiografia, por vezes fria demais.

De todo modo,¬†No Portal da Eternidade¬†acerta muito mais do que desliza em sua corajosa e afetuosa abordagem, evidenciando a sempre aguda atualidade de van Gogh. √Č poss√≠vel mesmo que a cinebiografia definitiva do pintor ainda venha a ser produzida, como tamb√©m √© poss√≠vel que ela nunca venha a existir: assimilar a mente de um g√™nio √©, afinal, uma tarefa de propor√ß√Ķes b√≠blicas ‚ÄĒ e este sonhado projeto n√£o √©¬†No Portal da Eternidade. Mas como clara carta de amor ao pintor holand√™s, escrita por um dos mais talentosos e aut√™nticos pintores contempor√Ęneos, √© excelente. Ap√≥s o malsucedido¬†Miral, de 2010, Schnabel est√° retomando a sua melhor forma como cineasta. A sorte √© nossa.

No Portal da Eternidade
No Portal da Eternidade
No Portal da Eternidade
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No Portal da Eternidade
No Portal da Eternidade
Título original At Eternity's Gate
IMDb Rating 6.9 29,149 votes
TMDb Rating 6.9 824 votes

Director

Elenco

Willem Dafoe isVincent van Gogh
Vincent van Gogh
Rupert Friend isTheo van Gogh
Theo van Gogh
Oscar Isaac isPaul Gauguin
Paul Gauguin
Mads Mikkelsen isThe Priest
The Priest
Mathieu Amalric isDr. Paul Gachet
Dr. Paul Gachet
Emmanuelle Seigner isMadame Ginoux
Madame Ginoux
Amira Casar isJohanna van Gogh-Bonger
Johanna van Gogh-Bonger
Vincent Pérez isThe Director
The Director
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