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No Coração da Escuridão

No Coração da Escuridão

May. 18, 2018USA113 Min.R
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Sinopse

No Coração da Escuridão

Ernest Toller (Ethan Hawke) é um ex-militar que, após a morte do filho na Guerra do Iraque, se refugiou na fé. É assim que, tornado pastor, acaba por ser colocado numa pequena localidade a norte de Nova Iorque. Lá, conhece Mary (Amanda Seyfried), uma jovem a atravessar um momento difícil com o marido, um ambientalista radical. Através deles, Toller descobre uma série de negócios obscuros entre a Igreja que representa e algumas empresas pouco escrupulosas da região. Ao perceber a sua impotência para resolver o caso, o reverendo vê-se a colocar em causa as suas mais profundas convicções…

Crítica

Com o rosto calejado pelo passado e os ombros pesados pelas preocupações do presente, o Reverendo Ernst Toller (Ethan Hawke) veste a batina, prepara o sermão do dia e adentra a Igreja First Reformed, em Snowbridge, Nova Iorque, vacilante. Ele luta para manter-se de pé, para permanecer sendo o guia que seu rebanho espera que ele seja, mas o desespero e a escuridão, anunciados por um céu permanentemente nublado, rondam seu espírito, diluem sua convicção: este é um homem que conhece o inferno e que testemunha o regresso paciente das sombras, apesar de todos os seus esforços, de toda sua vontade e fé.

O mais novo drama do diretor e roteirista Paul Schrader (Cães Selvagens), First Reformed, poderia muito bem ser um homônimo do clássico da literatura de Joseph Conrad, “O Coração das Trevas”, adaptado por Francis Ford Coppola em Apocalypse Now. Porque, por mais que o protagonista deste assombroso drama não navegue um rio africano em busca de um ditador paramilitar escondido nas profundezas da selva, ele embarca, sim, em uma jornada sombria rumo ao cerne de uma questão espinhosa: como ainda ter fé frente à iminência de uma hecatombe ambiental?

Esta é só uma das muitas duras perguntas postas por Schrader, em um tom quase filosófico, destilado por meio dos crus aforismos que povoam as linhas do diário de Toller — estrutura narrativa que referencia o intimista Diário de um Padre, do francês Robert Bresson — e para as quais, é claro, não existem soluções fáceis. E também é óbvio que não poderia ser diferente disso: vivemos em um mundo onde dois dos maiores projetos ocidentais, o cristão e o científico, falharam — e é exatamente porque foram esgotados após inúmeros equívocos internos que Schrader criou um filme tão furioso quanto No Coração da Escuridão.

O drama, como perfeito espelho de seu personagem principal, é construído pelo cineasta da mesma forma como Hawke desenha seu papel: de maneira lenta e imperturbável, cuidadosa, silenciosa e muito controlada em todas as suas tarefas. Contudo, essa abordagem metódica compartilhada por diretor e ator é empregada justamente para guardar segredos profundos; é, de fato, uma máscara plácida que cobre um íntimo repleto de angústia e tormento. Tanto Toller quanto No Coração da Escuridão estão prontos para explodir a qualquer instante, especialmente porque Schrader, em um golpe de mestre, une duas crises.

O olhar perdido do Reverendo, provocado por sua crença abalada, é ainda mais agredido quando ele entra em contato com a problemática ecológica. Espiritual e ativista em iguais medidas, este drama solidifica em seu protagonista uma espécie de energia híbrida, que combina a obsessão violenta do Travis Bickle — e a cama! — de Taxi Driver, clássico de Martin Scorsese escrito por Schrader, à agonia experimentada pelo padre Tomas Ericsson de Luz de Inverno (de Ingmar Bergman). É, sem dúvidas, uma missão quase suicida, que só poderia mesmo ser desempenhada por alguém como Hawke, um ator do mais refinado calibre.

No Coração da Escuridão é todo do astro, e não é nada complicado entender por que Schrader enquadrou seu drama no restritivo formato 4:3. Além de chamar à lembrança às obras da sétima arte das décadas de 50 e 60, e de emular o rigor narrativo demandado pela própria trama por meio da câmera, a contida e claustrofóbica janela quadrada permite colar toda a perspectiva do drama no rosto e nas ações de Hawke que, verdadeiramente, atinge o auge de sua carreira com este papel. Operando como uma força da natureza, o ator personifica o intrincado equilíbrio formado pela porosa fronteira entre a luz e as trevas.

No Coração da Escuridão

De fato, pouquíssimas obras têm a capacidade de desviar do clichê, esta poderosa instituição humana, demasiado humana que parece dominar todas as narrativas. Assim, o trabalho de um verdadeiro criador, como parece argumentar Schrader, não se manifesta na destruição do comum — este talvez seja o território de atuação de um gênio —, mas na elevação do ordinário à categoria do extraordinário. É, portanto, o entendimento que o cineasta possui, como devoto católico, acerca da necessária coexistência da luz e da escuridão que faz com que No Coração da Escuridão seja uma obra tão profunda e ramificada.

Assunto nenhum foge do agudo e crítico radar do realizador e roteirista: da influência polarizante do “efeito bolha” que as redes sociais causam na mentalidade dos jovens à atual crise dos refugiados; da islamofobia à escalada da violência nos grandes centros urbanos; o avanço da virtualidade sobre o contato com a realidade ao cinismo que derrota toda e qualquer possibilidade de crença; e, é claro, da comodificação de Deus pelas mega-igrejas e seus poderes políticos à irresponsável, criminosa e letal conduta de grandes corporações no que tange o cuidado — ou a falta dele, melhor dizendo — com o meio-ambiente.

À luz da recente tragédia de Brumadinho — aliás, ativistas brasileiros que foram assassinados nos últimos anos por lutarem contra o desmatamento e a favor dos povos nativos, como a missionária Dorothy Stang e os ambientalistas José Cláudio Ribeiro da Silva e Maria do Espírito Santo, são citados nominalmente por Schrader —, onde o rompimento de uma barragem soterrou centenas de vidas, No coração da Escuridão ganha mais uma camada de dor e urgência em sua mensagem, direcionada principalmente às instituições religiosas e à ausência de ação das mesmas em relação à destruição ecológica.

A denúncia realizada pelo diretor é concretizada a partir de duas entidades: a religiosa Abundant Life, que detém o controle da Igreja First Reformed, e a Balq Industries, do ramo de energia. Para Schrader, não há uma diferença entre os líderes das duas companhias, o Reverendo Jeffers (Cedric the Entertainer) e Ed Balq (Michael Gaston): são dois produtos distintos, tão poderosos quanto corruptos, tão complementares quanto mutualistas em seu parasitismo, de um mesmo sistema que visa o lucro acima de qualquer compromisso com um determinado tipo de sustentabilidade ou com a fé alheia.

Em sua meditação lenta e assombrosa, First Reformed é praticamente um tratado que questiona, acima de tudo, o plano de atuação das igrejas, que perderam o que importa de vista, e contra aqueles que negam o aquecimento global, como o atual presidente dos Estados Unidos, Donald Trump. Sem tentar esgotar todos os ramos que derivam de sua trama principal, o realizador une a energia crua de sua mensagem a uma muito hábil e elegante condução, formando um soco no estômago, desferido com maestria em sua questão: poderá Deus nos perdoar por todos os pecados cometidos contra a natureza?

Mas como já enunciado anteriormente, os demônios não exorcizados deste drama, sejam eles internos ou não, também tem um contraponto, corporificado pela personagem de Amanda Seyfried — em uma performance tridimensional, emocionante e muito rica —, Mary Mansana. Frente ao desespero, é a mulher grávida que simboliza a esperança e a conexão de Toller com o divino, apesar de seu cinismo provocado pelas tragédias de seu passado. A iluminação, sempre natural, praticamente ganha outra dimensão de luz com Seyfried em cena, que coprotagoniza as melhores sequências do longa ao lado de Hawke.

No Coração da Escuridão

E a atriz que, apesar de seu pouco tempo de tela, representa o quê de sublime imbuído em First Reformed, um elemento de transcendência que paira em frente aos nossos olhos sem que possamos necessariamente identificá-lo. E o magnífico encerramento desta obra prova que Schrader levou ao pé da letra o conceito criado por ele mesmo: o de “estilo transcendental”, que caracteriza o rigorosamente estético e filosoficamente contemplativo cinema dos mestres deste realizador — os supracitados Bresson e Bergman, Yasujiro Ozu (Era Uma Vez em Tóquio) e Carl Theodor Dreyer (A Paixão de Joana D’Arc).

Porque ao passo em que é evidente que First Reformed também é um tributo em sua superfície, é igualmente claro que o filme vai muito além com seus rebuscados diálogos. Schrader, que sempre reverenciou mestres da sétima arte e obras do passado — tendo refilmado e citado longas como Sangue de Pantera e O Batedor de Carteiras durante sua carreira —, dá um passo à frente com este mais recente e formalista drama. Em First Reformed, o eterno aprendiz mostra que, como cineasta, um cargo no qual teve seus talentos questionados no decorrer de sua trajetória, finalmente atingiu a categoria de mestre.

No Coração da Escuridão
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No Coração da Escuridão
Título original First Reformed
IMDb Rating 7.1 48,818 votes
TMDb Rating 7 672 votes

Director

Elenco

Ethan Hawke isPastor Ernst Toller
Pastor Ernst Toller
Amanda Seyfried isMary Mensana
Mary Mensana
Cedric the Entertainer isPastor Joel Jeffers
Pastor Joel Jeffers
Philip Ettinger isMichael Mensana
Michael Mensana
Michael Gaston isEdward Balq
Edward Balq
Bill Hoag isJohn Elder
John Elder
Ingrid Kullberg-Bendz isMiddle-Aged Tourist
Middle-Aged Tourist
Ken Forman isMiddle-Aged Man
Middle-Aged Man
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