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Divino Amor

Divino Amor

#QuemAmaDivideJun. 27, 2019Brazil100 Min.PG
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Sinopse

Divino Amor

Joana usa sua posição no trabalho para salvar casais que chegam para se divorciar. Ela faz de tudo para seduzir os clientes a participarem de uma terapia religiosa de reconciliação no grupo Divino Amor. Tudo é em nome de um projeto maior para a manutenção da família sagrada dentro da fé e da fidelidade conjugal

Crítica

Dentro de apenas oito anos, o Brasil se transforma numa rep√ļblica evang√©lica. O Carnaval √© substitu√≠do por grandes festas de m√ļsica gospel. A tecnologia permite detectar, pelos scanners de seguran√ßa na entrada de um edif√≠cio, se uma pessoa est√° casada, solteira ou divorciada, ou se a mulher est√° gr√°vida e o filho j√° foi registrado. Em quest√£o de segundos, uma paternidade pode ser verificada para impedir os rebentos bastardos. Caso algu√©m esteja com pressa para ir a uma igreja, pode receber atendimento personalizado via¬†Drive Thru.

 

√Č engra√ßado por ser absurdo; √© terr√≠vel por n√£o ser t√£o absurdo assim. Em¬†Divino Amor, o diretor¬†Gabriel Mascaro¬†imagina um leve aprofundamento de determinadas tend√™ncias, conferindo aten√ß√£o espec√≠fica √† religi√£o, √† tecnologia e ao individualismo. No centro da trama se encontra um casal evang√©lico exemplar: Joana (Dira Paes) e Danilo (J√ļlio Machado), cujo trabalho para o governo se confunde com a dedica√ß√£o direta a Deus. Enquanto ela luta para evitar div√≥rcios num cart√≥rio, ele prepara coroas de flores para funerais crist√£os. Falta um √ļnico elemento para que a vida de ambos esteja completa: um filho que tarda a chegar.

A normaliza√ß√£o das press√Ķes sociais √© muito bem trabalhada no projeto. Com a placidez t√≠pica ao discurso crist√£o, Joana escuta que ‚ÄúBasta ter f√©‚ÄĚ, ‚ÄúDeus sabe o que faz‚ÄĚ, ‚ÄúA recompensa chegar√° na hora certa‚ÄĚ. O novo Brasil √© tomado por uma banaliza√ß√£o ret√≥rica e est√©tica: os ambientes de trabalho s√£o ass√©pticos, as casas s√£o id√™nticas e impessoais, os lugares de culto trazem como √ļnica decora√ß√£o uma logomarca e as luzes multicoloridas projetadas sobre paredes brancas. Flores e sorrisos abundam por todos os cantos, mas as pessoas ocultam um sofrimento cr√īnico por n√£o corresponderem aos padr√Ķes ideais lan√ßados pela espiritualidade.

 

A excelente direção de arte de Thales Junqueira, em conjunção com a fotografia impecável de Diego García, estabelece uma atmosfera afável, sem asperezas, e também sem identidade. Parte considerável do teor crítico deste filme provém deste apocalipse kitsch transformado em ordem natural das coisas. Baudrillard já dizia que toda revolução política implica uma revolução estética, algo que Divino Amor demonstra com humor, porém sem ridicularização. Existe respeito pelas crenças de Joana e Danilo, assim como pelo sofrimento de ambos na espera de uma criança.

 

Ao mesmo tempo, o projeto desperta a impress√£o de que as cenas se acumulam sem necessariamente sem desenvolver, ou talvez que elas se equivalham umas √†s outras. A apresenta√ß√£o do cart√≥rio, do¬†Drive Thru¬†e do culto ‚ÄúDivino Amor‚ÄĚ possui grande interesse, mas perde seu impacto √† medida que os espa√ßos s√£o repetidos, em momentos que aprofundam a psicologia dos personagens, por√©m n√£o fazem avan√ßar a narrativa. Como vivem os vizinhos de Joana e Danilo? Os pais deles? Os melhores amigos? De que maneira este modo de vida se reflete na pol√≠tica partid√°ria, na m√≠dia, nas atividades de lazer? Nunca sabemos ao certo. Os protagonistas s√£o confinados a um √ļnico conflito ‚Äď a completude atrav√©s da procria√ß√£o ‚Äď sem que o car√°ter dist√≥pico se apresente por completo.

Divino Amor

Este tem sido um tra√ßo curioso, uma marca autoral nos trabalhos de Mascaro como diretor de fic√ß√Ķes: um imenso talento para o desenvolvimento de personagens tridimensionais, uma percep√ß√£o agu√ßada dos espa√ßos e questionamentos pol√≠ticos, mas uma dificuldade em encaminhar estas figuras a um destino preciso uma vez que os elementos est√£o postos em jogo. Com frequ√™ncia, personagens s√£o abandonados e a hist√≥ria se suspende ao inv√©s de se concluir ‚Äď como se a cria√ß√£o de um mundo fascinante constitu√≠sse o objetivo em si, sem a necessidade de coloc√°-lo em pr√°tica, test√°-lo e conhecer os seus limites.

 

Talvez por isso a narra√ß√£o em¬†off, com uma voz infantil de tom estranhamento rob√≥tico, soe t√£o despropositada: apesar de estarmos numa esp√©cie de fic√ß√£o futurista, a voz se limita a repetir o conte√ļdo imag√©tico ou refor√ßar a ret√≥rica religiosa dos di√°logos. Ela se justifica narrativamente rumo ao final, por√©m soa como mero artif√≠cio de roteiro ao longo da proje√ß√£o. Seria muito interessante ver nossos protagonistas confrontados a outras situa√ß√Ķes que pudessem expandir o sentido de sua busca espiritual. Ainda que a repeti√ß√£o do circuito trabalho-culto-casa se justifique pela representa√ß√£o de uma rotina alienada, ela impede que o filme adquira maior relevo. Abre-se diante dos nossos olhos um mundo de infinitas possibilidades cinematogr√°ficas, mas apenas uma parte muito espec√≠fica delas √© explorada no filme.

Isso n√£o impede que¬†Divino Amor¬†forne√ßa uma d√ļzia de cenas memor√°veis como as bem dirigidas cenas de sexo dentro do culto ou o tratamento de Danilo para a infertilidade. O elenco comprova o talento de Mascaro para o trabalho com atores. Dira Paes est√° excelente numa personagem que poderia se transformar em caricatura nas m√£os de uma int√©rprete menos qualificada, enquanto J√ļlio Machado, desde¬†Joaquim¬†e¬†A Sombra do Pai, se transformou numa figura confi√°vel para complexos personagens taciturnos.¬†Thalita Carauta¬†refor√ßa a ideia de que, desde¬†O Lobo Atr√°s da Porta, √© a escolha ideal para instantes c√īmicos que exijam grande talento para di√°logos.

 

O projeto se encerra como um curioso pesadelo travestido de sonho, uma cautionary tale cujo tom rosado esconde um subtexto trágico. Estas são possivelmente as obras políticas mais relevantes no Brasil de hoje: aquelas que ao invés de nos dizerem o que pensar, quem adorar ou quem detestar, despertam uma sensação de desconforto, de que existe por aí um horror travestido de simpatia, uma violência disfarçada de superação. Joana, com suas roupas impecáveis, frases articuladas e moral intacta, se transforma no modelo de um terror ainda mais perverso porque nunca se assume como tal.

Divino Amor
Divino Amor
Divino Amor
Título original Divino Amor
IMDb Rating 6.3 1,728 votes
TMDb Rating 6 29 votes

Director

Elenco

Emílio de Mello isPastor Drive Thru
Pastor Drive Thru
Teca Pereira isMestra Dalva
Mestra Dalva
Mariana Nunes isLígia
Lígia
Paula Cohen isVizinha de Joana
Vizinha de Joana
Antonio Pastich isVigilante do Cartório
Vigilante do Cartório
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